O Olhar que Fundou uma Nação Ao descrever pela primeira vez a terra que os portugueses avistaram em 22 de abril de 1500, Pero Vaz de Caminha dirigiu-se ao Rei D. Manuel I com estas palavras: "Esta terra, senhor… Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa." (Estratégia Vestibulares) Essa passagem não é apenas literatura. É o primeiro laudo geomorfológico do Brasil. Em poucas linhas, o escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral registrou com precisão os elementos que a geologia moderna reconhece como os traços definidores desta costa excepcional: as falésias sedimentares bicolores — vermelhas pela oxidação do ferro nos sedimentos da Formação Barreiras, brancas pela composição argilo-arenosa mais pura —, os tabuleiros costeiros planos que coroam essas formações, e a extensa orla de praias abertas que as conecta ao oceano. O próprio termo "barreiras", que a geociência brasileira consagrou para designar essas formações sedimentares costeiras, é tributário desse registro histórico: ele remete diretamente à passagem da Carta de Caminha ao Rei de Portugal, em que o escrivão descreve o perfil das falésias do sul da Bahia. (Embrapa) A nomenclatura científica nasceu da percepção estética e geográfica de um homem do século XVI. Uma Geomorfologia Singular O relevo desta costa apresenta três formações distintas que ocorrem em faixas paralelas ao oceano: cadeias de montanhas arredondadas ao fundo; platôs que, ao se aproximarem do mar, formam penhascos de coloração branca ou avermelhada; e uma orla litorânea constituída por planícies arenosas. (IPHAN) Essa sequência — serra, tabuleiro, falésia, praia — é uma raridade geomorfológica no contexto da costa brasileira e constitui, por si só, um patrimônio natural de valor científico inestimável. As falésias da Costa do Descobrimento pertencem à Formação Barreiras, depósitos sedimentares neógenos acumulados ao longo de milhões de anos, cujos estratos expressam a história climática e geológica do continente sul-americano. Suas cores — do ocre ao vermelho intenso, do creme ao branco calcáreo — são o resultado de processos pedogenéticos e diagenéticos que conferem a cada paredão uma singularidade visual única. O Monte Pascoal, o ponto alto e arredondado avistado pelos navegantes portugueses e batizado naquele abril, completa esse conjunto como o marco geomorfológico de chegada ao Brasil — o primeiro gesto da paisagem em direção ao mundo. Sobre esses tabuleiros, a Mata Atlântica cresceu durante milênios em uma das formas de maior biodiversidade do planeta. A região abriga os remanescentes mais preservados de Mata Atlântica do Nordeste do Brasil, e a biodiversidade local se caracteriza pela mistura de endemismos regionais de floresta Atlântica e Amazônica, sugerindo que possam ter existido galerias de conexão entre ambas. (IPHAN) Uma Paisagem Habitada e Viva Antes de 1500, essa paisagem já era ocupada e nomeada. Os povos Pataxó e as culturas ceramistas Tupiguarani e Aratu-Sapucaí que deixaram seus vestígios nos platôs de Trancoso — como os mais de 200 mil fragmentos cerâmicos dos sítios Terravista — são a evidência de que essa terra foi escolhida por humanos milênios antes da chegada das caravelas. A paisagem geológica não foi apenas descrita pelos portugueses em 1500: ela foi vivida, cultivada e sacralizada por gerações de povos originários que a elegeram como território de vida. Essa sobreposição de temporalidades — o tempo geológico das falésias, o tempo pré-colonial dos ceramistas, o tempo histórico do Descobrimento, o tempo presente do cacau-cabruca e da Mata Atlântica em recuperação — é precisamente o que torna esta paisagem um bem cultural da mais alta complexidade e do mais alto valor. A Chancela como Dever e como Proteção A Chancela da Paisagem Cultural Brasileira, instrumento instituído pelo IPHAN por meio da Portaria nº 127/2009, define como Paisagem Cultural Brasileira "uma porção peculiar do território nacional, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores." (IPHAN) Nenhuma porção do território nacional preenche esse critério com maior riqueza, maior profundidade histórica e maior urgência de proteção do que a Costa Atlântica do Descobrimento. A chancela representa um avanço conceitual na abordagem do patrimônio, pois considera contextos complexos onde não estão postos apenas valores materiais ou imateriais, mas a relação singular estabelecida entre o homem e a natureza. (Ipea) Aqui, essa relação tem nome, data e documento: chama-se Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500. A chancela implica no estabelecimento de um pacto que pode envolver o poder público, a sociedade civil e a iniciativa privada, visando a gestão compartilhada da porção do território nacional assim reconhecida. (IPHAN) Esse pacto, no contexto da Costa do Descobrimento, é o que o INSTEC, o Comitê do Cacau, as comunidades Pataxó, os gestores do território e os parceiros institucionais já estão construindo — antes mesmo de a chancela formal existir. Paisagem é Património A frase que dá nome a este evento não é um slogan. É uma afirmação jurídica, científica e ética. A paisagem das falésias vermelhas e brancas que Caminha viu em 1500 não é cenário — é documento. Não é recurso — é herança. Não é passado — é futuro. Protegê-la é honrar o primeiro olhar que o mundo lançou sobre o Brasil. Rosa Penzza Instituto INSTEC de Salvaguarda — Trancoso, Porto Seguro, Bahia 22 de Abril de 2026 — Dia do Descobrimento do Brasil

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